quinta-feira

feel the same way

"Sandy mora num apartamento tão pequeno que quando chega com as compras do supermercado tem que tirar alguma coisa de dentro de casa para poder entrar com elas. Ela luta diariamente para poder comprar comida e roupa para si e para a sua filha de 4 anos com o dinheiro que ganha em trabalhos ocasionais, mal remunerados.
O ex-marido há muito que desapareceu e provavelmente nunca mais irá aparecer. São mais as vezes em que o automóvel não pega do que as que consegue pô-lo a andar de bicicleta, andar a pé ou pedir boleia a amigos. Os bens que a maioria dos americanos consideram essenciais à sua sobrevivência - televisão, micro-ondas, bons sapatos - estão no fundo da lista de Sandy, com a classificação de 'talvez um dia'.
O dinheiro mal chega para a alimentação, vestuário, os estudos da filha e medicamentos, sobrando por vezes algum para poder ir ao cinema.
Sandy já nem se lembra a quantas portas bateu para conseguir um emprego decente, mas há sempre alguma coisa que falha - pouca experiência ou horários que não lhe possibilitam tomar conta da filha.
A história de Sandy não é invulgar. Muitos pais sozinhos e pessoas de idade lidam com o problema de uma estrutura económica situada entre o terem realmente meios para viver e o não serem suficientemente pobres para receberem ajuda social. O que torna Sandy diferente é a sua postura na vida.
- Não possuo muitos bens materiais, nem tenho nada a ver com essa história de sonho americano. - disse-me ela uma vez a sorrir.
- Tens pena? - perguntei-lhe
- Às vezes. Quando vejo alguma criança da idade da minha filha com boas roupas, brinquedos, a viver numa boa casa ou a passear num bom carro, sinto-me mal. Todos queremos o melhor para os nossos filhos. - respondeu ela.
- Mas não te sentes amargurada?
- Amargurada porquê? Não estamos a morrer à fome ou ao frio, temos aquilo que realmente é importante na vida.
- E o que é realmente importante?
- Eu acho que, por mais coisas que se comprem ou por mais dinheiro que se tenha, só conseguimos ter realmente três coisas na vida, e com ter, significa que ninguém nos pode tirar.
Primeira, as nossas experiências; segunda, os verdadeiros amigos; e terceira, aquilo que cultivamos dentro de nós. - respondeu-me sem hesitar.
Para Sandy, as 'experiências' não significam grandes acontecimentos. São as chamadas 'coisas normais', como passear pelo bosque com a filha, dormir à sombra de uma árvore, ouvir música, tomar um bom banho ou fazer pão.
A definição de amigos é mais extensa.
- Os verdadeiros amigos são aqueles que nunca saem do nosso coração, mesmo que tenham de sair das nossas vidas por algum tempo. - explicou ela.
Quanto ao que cada um de nós cultiva dentro de si, Sandy disse:
- Isso depende de cada um de nós! Eu nunca cultivo amargura ou tristeza. Podia, se quisesse, mas prefiro não o fazer.
- Então... o que é que tu cultivas? - perguntei-lhe
Sandy olhou para a filha com ternura e depois voltou a olhar para mim. Apontou para os seus olhos brilhantes de ternura, gratidão e alegria.
- Cultivo isto."


Philip Chard

Um comentário:

um elogio é sempre bom,uma crítica é sempre constructiva :)