O ex-marido há muito que desapareceu e provavelmente nunca mais irá aparecer. São mais as vezes em que o automóvel não pega do que as que consegue pô-lo a andar de bicicleta, andar a pé ou pedir boleia a amigos. Os bens que a maioria dos americanos consideram essenciais à sua sobrevivência - televisão, micro-ondas, bons sapatos - estão no fundo da lista de Sandy, com a classificação de 'talvez um dia'.
O dinheiro mal chega para a alimentação, vestuário, os estudos da filha e medicamentos, sobrando por vezes algum para poder ir ao cinema.
Sandy já nem se lembra a quantas portas bateu para conseguir um emprego decente, mas há sempre alguma coisa que falha - pouca experiência ou horários que não lhe possibilitam tomar conta da filha.
A história de Sandy não é invulgar. Muitos pais sozinhos e pessoas de idade lidam com o problema de uma estrutura económica situada entre o terem realmente meios para viver e o não serem suficientemente pobres para receberem ajuda social. O que torna Sandy diferente é a sua postura na vida.
- Não possuo muitos bens materiais, nem tenho nada a ver com essa história de sonho americano. - disse-me ela uma vez a sorrir.
- Tens pena? - perguntei-lhe
- Às vezes. Quando vejo alguma criança da idade da minha filha com boas roupas, brinquedos, a viver numa boa casa ou a passear num bom carro, sinto-me mal. Todos queremos o melhor para os nossos filhos. - respondeu ela.
- Mas não te sentes amargurada?
- Amargurada porquê? Não estamos a morrer à fome ou ao frio, temos aquilo que realmente é importante na vida.
- E o que é realmente importante?
- Eu acho que, por mais coisas que se comprem ou por mais dinheiro que se tenha, só conseguimos ter realmente três coisas na vida, e com ter, significa que ninguém nos pode tirar.
Primeira, as nossas experiências; segunda, os verdadeiros amigos; e terceira, aquilo que cultivamos dentro de nós. - respondeu-me sem hesitar.
Para Sandy, as 'experiências' não significam grandes acontecimentos. São as chamadas 'coisas normais', como passear pelo bosque com a filha, dormir à sombra de uma árvore, ouvir música, tomar um bom banho ou fazer pão.
A definição de amigos é mais extensa.
- Os verdadeiros amigos são aqueles que nunca saem do nosso coração, mesmo que tenham de sair das nossas vidas por algum tempo. - explicou ela.
Quanto ao que cada um de nós cultiva dentro de si, Sandy disse:
- Isso depende de cada um de nós! Eu nunca cultivo amargura ou tristeza. Podia, se quisesse, mas prefiro não o fazer.
- Então... o que é que tu cultivas? - perguntei-lhe
Sandy olhou para a filha com ternura e depois voltou a olhar para mim. Apontou para os seus olhos brilhantes de ternura, gratidão e alegria.
- Cultivo isto."
Philip Chard
estas la bom texto gostei
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